estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

agosto 23, 2004

Lar...



Ela decidiu que iria surpreendê-lo aquela noite. Chegou mais cedo do trabalho, deitou a pasta preta pesada em cima do sofá. Foi largando a roupa pela casa, a caminho do banheiro.

Ligou o chuveiro antes de entrar. Olhou-se no espelho com o olhar clínico das mulheres. Examinou cada traço, cada poro, cada marca. Percebeu que estava envelhecendo por causa das rugas de expressão que surgiam no canto dos olhos e ao redor da boca. Fez mil e uma caretas, abriu e fechou sua expressão uma centena de vezes. O barulho da água caindo lhe soava convidativo e o vapor já embaçava o espelho. Entrou.

Deixou que ela lhe caísse sobre o corpo numa temperatura que não enrugasse ainda mais sua pele. Inclinou a cabeça para molhar o pescoço. Adorava quando ele lhe beijava o pescoço. Lembrava-se com perfeição da primeira vez que ele havia se aventurado naquela parte quase sempre coberta pelos longos cabelos. Lembrava-se do estranhamento inicial e das mil borboletas na barriga. Lembrava-se de sua timidez fingida e de como nunca havia conseguido enganá-lo.

Passou a mão pelo corpo, na intenção de redescobrir a menina que outrora havia sido descoberta. Sentiu- se menos firme, mais áspera, menos leve. Talvez fosse só impressão. Tornou a viajar a mão pela pele. Sentiu-se menos firme, mais áspera, menos leve.

Teve vergonha. Vergonha de se expor daquela forma à menina que um dia havia sido. Sentiu medo da decepção da menina ao ver seu corpo naquele estado de deterioração. Quis sair dali, mas a morte é a única saída do corpo. Quedou.

Pegou o sabonete, deslizou-o lentamente como se sua pele fosse rasgar-se em mil pedaços. Abriu mais as válvulas para que a água jorrasse com mais força e varresse qualquer vestígio de espuma o mais rápido que pudesse. Não se importou com a temperatura.

Fechou as torneiras, alcançou a toalha. Saiu molhada do banheiro, com o pano mal enrolado pelo corpo, permitindo que os pingos traçassem seu caminho de volta ao quarto. Abriu a porta do armário. Escolheu um pijama de calças e mangas longas e já não se importava se fazia calor.

Sabia que ele chegaria dali a alguns instantes. Não queria que ele surpreendesse seu corpo de menina machucado pelo tempo, cheio de marcas e sem vida. Tinha vergonha do que se tornara. Aquela morada lhe era estranha. Morava em uma casa que não era a sua e só agora havia se dado conta. Ou talvez fosse sim a sua. Mas fazia tanto tempo que não a arrumava... Estava cheia de pó, mofo, teias de aranha. Os cômodos permaneciam nos mesmos lugares e por isso ainda podia transitar por ela com alguma familiaridade, mas as marcas de infiltração na parede e o mal cheiro do carpete realmente faziam com que ela sentisse repulsa por aquele lugar horrendo. Não se lembrava de ter se decuidado tanto. Talvez, na pressa do dia-a-dia, tivesse deixado a louça acumular e fossem os restos de comida do passado que estivessem alimentando as baratas do presente. De jeito nenhum poderia mostrar a ele que havia se tornado uma pessoa tão descuidada. Ele próprio se recusaria a reconhecer naquela morada imunda o que já havia sido um dia seu palácio.

Ouviu barulho de chaves na porta. Pulou para a cama o mais de depressa que pôde. Tinha vergonha. Não poderia encará-lo. Ele perceberia.

Da cozinha, ele chama seu nome, mas fica sem resposta. Ela ouve o barulho dos sapatos que se arrastam pelo chão, do armário que se abre - tenho que colocar óleo nas dobradiças -, dos copos que se tocam, da água que abandona a jarra, do copo que encontra a pia, do interruptor que acende a luz do corredor.

Ele adentra o quarto e lá está ela: de olhos fechados, deitada, imóvel, sem respirar e de pijamas em pleno verão. Ele percebe as gotas d'água que agora formam um filete no chão - tomou banho não faz muito tempo-, olha a toalha molhada em cima da cama. Ele se senta, desamarra os sapatos apertados de cansaço, desabotoa a camisa. Lá está ela de olhos fechados, deitada, imóvel, sem respirar e de pijamas em pleno verão.

Ele a observa longamente e pensa em como aquela menininha que ele conhecera na adolescência pudera se tornar uma mulher tão linda, tão madura, tão segura de si. Lembrou-se de como ela era encantadora quando acordava de cabelos bagunçados, olhos inchados, hálito morno e recusava qualquer gesto de carinho de sua parte. Ninguém é gente a esta hora da manhã - ela dizia. Mas como ele se sentia atraído por aquela mulher...


3 Comments:

Blogger Amanda Schuab said...

Mais um texto maravilhoso..
Como eu já te disse, desse jeito viro leitora compulsiva!

10:23 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari,
Que vc é muito inteligente eu já sabia, mas vc é brilhante também!! Mto STORM (pode incorporar ao seu vocabulario hehe) os seus textos!! Além de uma grande amiga, divertida e sempre pronta a ajudar, é também uma grande escritora, e com certeza futura grande jornalista!! Bjos, t adoro!!
Ass: Red Cheeks

1:15 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Amei mari!!!
como a amanda disse vou ficar viciada no seu blog agora!!! nao pare de escrever nunca!!!
mts bjos
Paty

11:15 PM

 

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