estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

agosto 21, 2004

Olhos de vidro, corpo de pedra



É verdade que eu, de alguma forma, já previa aquela notícia. Mas isso de nenhuma forma aliviou seu impacto. Minhas lágrimas prévias, meus pensamentos premonitórios, minhas adiantadas certezas incertas. Não. Nada daquilo me serviu de conforto quando ouvi, com todas as letras, o que já sabia, mas preferia fingir não saber.

É difícil descrever qual processo metabólico-psicológico se deu em mim naquele momento. Ainda atordoada pelos eufemismos mal disfarçados de minha mãe, não sabia que forças me paralisavam e me impediam de chorar, de gritar, de respirar. Como é difícil digerir más notícias... Elas parecem suspensas no ar, entre a desejada inexistência e a dura realidade. Só se materializam quando nós a transmitimos a um outro alguém.

Levantei-me e, com olhos de vidro, dirigi-me a meu irmão. Precisava informá-lo também. Parei. Não era justo que ficasse sem saber a verdade, assim como não era justo que sofresse tanto quanto eu. Ele ainda é pequeno demais para saber. Mas com quinze anos nunca se é pequeno demais para saber. Contei.

Ele permaneceu deitado no chão do quarto numa posição que me parecia muito desconfortável enquanto eu, entre lágrimas, passava-lhe a notícia. Ele intercalava o olhar: ora eu, ora a tevê. Achei que isso era um recurso para se afastar daquilo que estava ouvindo. Ele balançava a cabeça para me mostrar que sabia que eu estava ali, à porta, falando algo que ele não queria escutar. Não disse nada. Virei-me e fui à sala.

Olhos de vidro não vêem tevê, mas fingi que assistia a alguma coisa que até hoje desconheço. Lágrimas de rio desciam meu rosto marcando seus percursos a fim de nortear as seguintes. Olhos de vidro. Corpo de pedra pesada, preta, polida, impossível.

Meu irmão aparece à porta e, ao me ver naquele estado, aproxima-se. Senta-se ao meu lado, passa seu braço por detrás de meu corpo de pedra e sussurra ao meu ouvido: temos que ser fortes.

3 Comments:

Blogger Amanda Schuab said...

Mari, seu texto está maravilhoso. Não tenho o mesmo talento que você com as palavras, mas quero te dizer que eu TE AMO DEMAIS! E vou estar sempre do seu lado.
Tudo vai dar certo, tenho certeza! A começar pelo seu blog, que em apenas dois textos já mostraram a grande jornalista que temos pela frente! Te amo demais!!!

3:22 PM

 
Blogger Amanda Schuab said...

Mari, seu texto está maravilhoso. Não tenho o mesmo talento que você com as palavras, mas quero te dizer que eu TE AMO DEMAIS! E vou estar sempre do seu lado.
Tudo vai dar certo, tenho certeza! A começar pelo seu blog, que em apenas dois textos já mostraram a grande jornalista que temos pela frente! Te amo demais!!!

E como não podia deixar de ser: FUI A PRIMEIRA A COMENTAR!!

3:24 PM

 
Blogger Bruno Rabin said...

Mariana, eu tb aposto em vc! Vida longa ao blog, aos escritos e a todos.

P.S. A Amanda é meio repetitiva, né?

10:10 PM

 

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