estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

setembro 22, 2004

Sedução



Ela existia. Tinha começo. Tinha meio. Talvez não tivesse um fim muito bem definido, todavia ele poderia tomar conformes com o decorrer dos fatos, como houvera acontecido tantas outras vezes. Não conseguia. Ela existia e ele sabia, mas não lhe passava pela garganta. Atravessava sua cabeça, de um lado a outro, como menina travessa que brinca de pega. Podia descrevê-la com perfeição, mas tinha dúvidas se algum dia viria alcançá-la e isso o angustiava. Ela o pertencia da forma mais etérea que a posse e a propriedade podem assumir; bolhas de sabão que, ao menor toque, esvaíam-se pelo ar, gotas de suor que evaporavam deixando somente o gosto salgado (para ele, amargo) de já ter tocado aquela pele.

Ela tinha forma, pretensões de conteúdo, algum possível desfecho de fácil identificação. Alguns possivelmente chorariam, embora não fosse essa sua intenção. Não era alegre e condizia exatamente com o momento que ele vivia, contudo não se materializava. Estava lá, fervilhando idéias, e ela não as permitia florescer. Sentia-se angustiado. Não queria nada que não ela e ela não queria nada. E ponto. Agia como se fosse independente e pudesse fugir à sua vontade. E talvez fosse. E, de fato, fugia. Ela sabia que era boa demais para ele e, mesmo assim, continuava o jogo da sedução como se, em algum ponto, fosse ceder. E ele a acompanhar seus movimentos, suas nuances, seus percursos com os olhos vidrados de homem sedento de satisfação. É verdade que poderia querer outras. Muitas estavam ali, à sua disposição, quiçá algumas antigas, não seria difícil reatar aquelas ligações deixadas no passado. Mas era a ela que ele queria. As demais não lhe importavam.

Ainda com o papel em branco, batia a caneta na mesa no mesmo ritmo há horas. Deveria haver um jeito de aprisioná-la. Precisava de um plano.

5 Comments:

Blogger Amanda Schuab said...

Mari, adorei o texto. Só lendo pela segunda vez...e já sabendo do final que eu pude perceber vários detalhes que eu deixei passar na primeira leitura!! Adorei!!
Pra variar...
Beijos!

12:02 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari querida! Já comentei com vc hoje pessoalmente isso que você escreveu, provando que, realmente, eu te entendo. Gostei bastante sim!
Bjos pra minha aphophs preferida
Carlinha

7:45 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari, como vc escondeu esse talento seu de mim por tanto tempo! Gostei muito, me identifiquei com seu estilo!
Favoritos no meu computador!!
Beijocas, Camila

12:34 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Clap, clap, clap! Realmente muito bom!

7:00 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Comentario meio atrasado...
Impressionante ler sabendo do q se trata e ver desaparecerem as metaforas. li o tempo todo pensando na historia e a mulher simplesmente sumiu do texto! ai voltei e fiquei tentando achar outras possibilidades de interpretacao, e nao consegui. ta tudo tao amarradinho!! mto bom esse texto. e to mto curiosa pra saber qual eh essa ideia boa demais ate pra vc q escreve tao bem. bjos, luiza

9:09 AM

 

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