estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

outubro 13, 2004

Persona(gem)

Não sabia se era mania ou alguma doença ainda não catalogada pela ciência. A verdade é que era inevitável. Havia se acostumado àquilo desde menino e, de alguma forma, mesmo que quisesse, não conseguia se desvencilhar daquele costume. Só era preciso que lhe passasse alguém pelos olhos. Pronto! Lá estava ele novamente a inventar histórias, a criar rumos incertos, a predizer o imprevisível. Não sabia como nem quando exatamente havia surgido, mas bastava que um pedestre lhe atravessasse o caminho e ele se punha a imaginar mil tramas. Eram todos personagens de uma novela que ele havia começado ainda na infância e que se estendia não sabia ele até quando.

Talvez o costume tivesse começado quando, aos cinco anos de idade, o pai o trouxe para o Rio de Janeiro. Lembrava-se de que, sentado no ônibus, sem nada para fazer, já havia contado todas as cercas da estrada, feito contas de somar e de diminuir com as placas de velocidade, tentado buscar formas nas nuvens do caminho ele atravessava. Nada adiantava. Estava mesmo agoniado. O pai já havia lhe chamado atenção umas quantas vezes porque o menino não parava de se mexer na cadeira, pertubando seu sono. Foi aí, ele acha, que ela surgiu.

Começou a observar cada passageiro do ônibus. Alguns estavam a dormir, outros olhavam a paisagem através da janela com olhares fixos que pareciam não enxergar nada, uns ouviam rádios de pilha... Mas uma moça em especial lhe chamou atenção. Ele estava solitária, magra, acanhada, quase que espremida contra a janela do ônibus. Achou aquela posição bastante desconfortável, não sabia como não lhe doíam as costas estando sentada daquele jeito. Ela estava a ler um livro grosso, de capa dura e vermelha, se não lhe falhava a memória. Parecia estar gostando muito da história. Não desgrudava os olhos da página nem por um segundo e ele ficou fitando-a durante muito tempo. Alguns minutos já haviam se passado, ele percebera ao olhar o relógio que antes havia retirado, muito cuidadosamente, do bolso do pai. Ela não virava a página. Talvez aquela parte da história fosse especialmente curiosa ou importante, mas ele duvidava disso. As partes curiosas e importantes costumam ficar logo no início ou guardadas para o gran finale. Ela estava no meio. Ele continuou a observar a moça que permanecia sentada, olhos grudados no livro, posição desconfortável. Ele pensou que ela, na verdade, não sabia ler. Segurava o livro e não conseguia decifrar uma só palavra. Fazia-o porque adorava livro, o cheiro dos livros, o peso dos livros, a imagem de inteligente que ele dava à pessoa que o segurava. Qualquer que fosse. O livro. A pessoa. Era possível que tentasse descobrir a lógica de formação das palavras por meio do tempo empregado em observá-las. Talvez ela achasse que elas passariam a fazer algum sentido se as olhasse com um pouco mais de atenção. Não sabia ao certo. Contudo, já havia imaginado que ela estava fazendo uma viagem muito mais longa do que a dele. Certamente, havia deixado a família, os pais e as onze irmãs, no sertão da Paraíba e seguido viagem até São Paulo, ele não sabia como. Mas tinha certeza: num pau-de-arara. Em São Paulo, abriu a bolsa de couro velho e descascado que ganhara em seu aniversário de 15 anos e retirou as economias de uma vida inteira para poder seguir viagem até o Rio. A moça tinha uma prima que morava no Rio. Uma prima um pouco mais velha que tinha feito a mesma viagem uns dois anos antes, havia conseguido um bom emprego. Trabalhava como diarista e estava ganhando mais do que o triplo do que ganhava na Paraíba. Era o suficiente para pagar o aluguel do cortiço e sanar as despesas com comida. É bem verdade que ficava sem o café-da-manhã de vez em quando, mas valia a pena. O Rio de Janeiro era outro mundo. Com o tempo, pretendia voltar a estudar e arrumar um emprego melhor, mas, por hora, estava aguardando a chegada da prima com quem dividiria o aluguel do cortiço e, quem sabe, o trabalho de diarista.

Sentiu no olhar fixo na página um quê de tristeza de quem se despede. Despedidas são sempre tristes, ele sabia apesar da pouca idade. O olho imóvel estava prestes a derramar uma lágrima, pensou. A lágrima possivelmente secara, fazendo com que ele não mais de mexesse. Ela queria chorar, mas não conseguia. Ou não podia.

Ele achou divertida aquela brincadeira de se adivinhar o que os outros são, para onde vão, em que direção e por que sempre com tanta pressa. Passou a adotá-la nos momentos de ócio, mas aquilo, pouco a pouco, tornara-se um vício. Já havia observado tantas pessoas tantas vezes que, hoje, podia prever com alguma precisão diálogos que aconteceriam e os proclamava, mexendo os lábios concomitantemente com os de seus personagens, sem fazer um som que denunciasse sua previsão certeira. Ele já sabia que a namorada, depois de olhar o prato vazio que ainda espera a comida do restaurante, passaria a mão no cabelo e o ajeitaria de trás da orelha. Sabia também que o namorado perceberia naquele momento o quanto ela era encantadora e procuraria sua mão por cima da mesa. Sabia que o velho que jogava cartas todas as tardes na praça era viúvo, não tinha filhos e era um militar inativo. Sabia que seus parceiros de jogo não notavam a marca da tristeza da solidão no canto de seus olhos. Sabia que ele fazia questão de escondê-la. Ele sabia a história de todos os seus personagens e nunca havia trocado uma só palavra, um só olhar, um só cumprimento com nenhum deles.

Naquele dia, porém, havia acordado e a cidade parecia vazia. Transitou pela rua em busca de alguma nova ou conhecida história, em busca de um personagem. Não avistou ninguém. Não achou muita graça em criar história para os pombos que se alimentavam de um pão bolorento jogado na calçada. Não sabia o que fazer. Voltou para casa, adentrou seu quarto. Estava zonzo e era a primeira vez que se sentia assim. Talvez fosse uma crise de abstinência, ou algo do tipo. Não sabia ao certo. Deitou-se na cama, olhou para o teto, a pá do ventilador a girar em virtude do vento que soprava da janela. Pensou sobre sua história. Sua própria. Sentiu um vazio estranho no estômago. Não conseguia se lembrar de nada. Ao contrário de seus personagens, não havia feito nada glorioso, não havia vivido um grande amor, não trazia a marca de nenhuma dor. Não tinha tino, não tinha talento, não tinha direção. Com algum esforço, limpou a neblina de um passado remoto e tentou re-traçar o caminho que o havia guiado até ali. Não conseguiu. Viver histórias de outros havia feito ele se esquecer de sua própria. Não havia outra saída. Decidiu inventá-la.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Gostei da idéia do texto..diferente!!! E muito bem realizada!!!!
To muito feliz que você está de volta!!
beijo, Camila

8:48 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari, ameeeei esse seu texto.. mt bom!!
bjuss Carol

3:14 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Pequena Mari,
Seus textos são incríveis, me surpreendo cada vez mais. Você é um orgulho pra mim querida!Espero poder te ver crescer cada dia nesse seu dom maravilhoso!Parabéns, parabéns e parabéns.
Te Amo muito!
beijos,
Na

10:14 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari, gostei muito, muito... Tenho lido unas textos seus, mas sem tempo para comments...Adorei! Parabéns! beijos, Renatinha (ex-pH)

4:35 PM

 

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