estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

novembro 26, 2004

Nosso velho amor novo



A história deles é engraçada, porque era bastante improvável que começasse daquela forma.

Ela era bailarina desde os quatro e carregava nas costas a responsabilidade de ser tudo o que sua mãe não havia podido ser. Aquele discurso no tom de lamentação tantas vezes repetido já havia sido decorado e ela já não sabia até que ponto fazia as coisas porque queria ou porque tinha vontade. Às vezes, tentava procurar dentro de si um desejo que lhe fosse genuíno, mas logo entregava-se à facilidade de fazer o que fosse para não ter que ouvir as velhas lamentações.

Ele era de esquerda. Na verdade, não sabia muito bem o que era ser de esquerda, mas aquilo sempre lhe havia soado politicamente correto. Não era revolucionário, como pretendia a maioria dos garotos de sua idade, contudo gostava de fingir que já havia participado de muitas manifestações. Já havia estado presente em uma porção delas, embora ninguém nunca o tivesse visto: "Você sabe como as pessoas somem no meio da multidão...". Os outros sempre sabiam.

Nâo. Eles não se esbarraram, acidentalmente, no vai-vem do centro da cidade. A pasta dela, que voltava apressada do colégio normal, também não caiu no chão, fazendo com que todas as folhas se espalhassem pela calçada. Ele não tentou ajudá-la, pediu mil perdões, endireitou os óculos que haviam ficado tortos com a queda. Ela não havia lhe sorrido um sorriso gentil, ainda agachada, recolhendo os papéis. Suas mãos não haviam se encontrado sem querer quando ele tentou colocar um caderno na pasta. Ela não se virou, sentido uma pontinha de vergonha e ele não tentou falar algo que quebrasse o constrangimento do momento. Ele não olhou seu rosto e percebeu a pintinha charmosa que ela trazia perto do olho direito, quebrando a monotonia da pele branca de porcelana. Ela não viu os óculos que davam a ele o encanto intelectual dos autores dos livros que lia. Ela não partiu, deixando para trás, esquecido no asfalto, o folheto de sua apresentação daquela semana. Ele também, ao vê-lo no chão, não tentou gritar alguma coisa que lhe chamasse a atenção. Ele não fez nenhum esforço para se fazer ouvir no murmúrio barulhento dos transeuntes. Ele não leu o papel e o guardou no bolso, pensando que iria à apresentação só para vê-la novamente. Não pensou em usar a desculpa do papel esquecido na calçada para começar a primeira conversa. Não imaginou que lhe beijaria a mão quando se apresentasse.

Não. Ele não havia percebido sua presença solitária naquela mesa esquecida no canto esquerdo do salão. Não havia visto seus pés que balançavam em ritmo de tédio, o sapato solto do calcanhar. Não havia se perguntado o que uma menina tão bonita fazia ali, sozinha, com a mão no rosto, esmagando a bochecha que abrigava a boca que, de tempos em tempos, abria-se de sono e prostração. Não havia se aproximado, sem se fazer notar, e a convidado para a valsa. Ela não esboçou nenhum sorriso ao simpático convite e se deixou seduzir pelo jovem cavaleiro. Eles não dançaram a noite toda, acreditando que haviam encontrado seu par ideal. Ele não fez questão de acompanhá-la até sua casa e ela não virou o rosto, fingindo não perceber o beijo que ele pretendia lhe dar. Ele não foi embora sabendo que o beijo tinha sido apenas adiado e pensando que, por ela, valia a pena esperar.

Não. Eles não se conheceram na viagem de trem que fizeram a São Paulo. Ele não percebeu a menina que chorava baixinho, olhando pela janela o cenário feio que aquele retângulo de ferro encerrava. Ele não lhe estendeu o lenço que carregava sempre consigo no bolso e ela não o aceitou, fazendo com que suas lágrimas corressem ainda com mais pressa. Ele não havia lhe dito que uma moça tão linda não devia chorar, por qualquer que fosse o motivo. Ela não lhe escondeu que estava grávida e que a mãe havia lhe mandado pra São Paulo até que ela tivesse o filho e que aquilo era a desgraça da família. Ela não lhe contou que a criança que carregava na barriga era fruto de uma noite, em que fugira de casa para encontrar o namorado. Não lhe contou que havia sido difícil segurar o primeiro desejo que ela sabia ser só seu e de mais ninguém. Não lhe disse também que fez isso, em parte, para provar a si mesma que era independente. Ele não havia feito a gentileza de não perguntar o porquê da choradeira. Também não havia se levantado para buscar um copo d'água. Eles não passaram o resto da viagem conversando e ela não descobriu nele mais do que um amigo, um pai para seu filho adulterino.

Agora ele tem 75, ela, 71. Amanhã irão se conhecer. Ela estará sentada no banco da praça a ler um livro e ele se recostará a seu lado. Ele reclamará do calor e ela concordará com os olhos ainda fixos no livro. E esse vai ser o primeiro parágrafo do próximo romance que ela vai ler. Mas isso se ele não a ficar importunando com suas queixas sobre a temperatura. Esses dois... Santa paciência!

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

mari, gostei bastante também... adoro textos de casais!!
beijocas Carol

1:56 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Você e o seu dom com as palavras! Que orgulho da minha amiguinha mais inteligente (depois de mim, é claro)! Adorei o texto, principalmete a parte "Suas mãos não haviam se encontrado sem querer quando ele tentou colocar um caderno na pasta".
Beijos
Taty

5:53 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Não precisa ficar chateada comigo, uma vez que você é unica que tem o privilégio de poder escutar os comentários pessoalmente.
Mas de qualquer forma, adorei o texto.
A liberdade que você proporciona ao leitor, para que ele mesmo possa "desenrolar" a história é fantástica.
Continue sempre assim, uma ótima "principiante" escritora. Rumo à Academia( as duas, tanto para o reconhecimento do talento quanto para admiração do corpo) Hehehehe,
Mentira, eu adoro seu corpicho.
Bjs eu te amo.
João Gabriel

7:50 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Amei!! e isso nao é novidade né...
Mas foi mt bom esse!! como eu já te disse fantastico!!! estou cada dia mais orgulhosa de vc!!!
bjinhos
Paty

11:15 PM

 

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