estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

novembro 07, 2004

Reencontros

Fazia mesmo muito tempo que a gente não se encontrava e aquilo para mim era como um reencontro comigo mesma. Já havia me esquecido de que as crianças passam por processos de metamorfose muito mais rapidamente (e muito menos dolorosamente) do que os adultos e ter tido com ele aquele dia me fez lembrar a infância que ficou guardada em algum lugar do meu passado, possivelmente numa caixa de papelão cheia de sonhos impossíveis, vontades de voar, cartinhas de amor nunca enviadas e alguma bonecas louras de cabelos cortados. Talvez fosse essa aquela caixa esquecida no canto, coberta por uma camada fina de poeira cinza, que hoje serve de suporte aos arquivos de histórias e às pastas com as imagens das ceias de Natal e das poucas viagens que fizemos. Verdade é que não precisei abri-la. Ele fez com que eu me lembrasse, com perfeição, de tudo que guardava ali dentro.

Tem cinco anos, quase seis. Sentou-se ao meu lado na hora do cachorro-quente e fiz questão de fazer todo tipo de pergunta a que as crianças estão acostumadas a responder: Ele me contou que, sim, gostava da escolinha, seu melhor amigo é o Bernardo e a aula de que ele mais gosta é a de Educação Física. Disse que havia ido ao cinema dia desses. Viu um filme "maneiro"! A mãe do Bernardo quem levou. Aliás, o Bernardo tem um irmão de um ano, quase dois. Tão pequenininho, coitado!

Lembrei-me de que, quando tinha cinco anos, eu tinha mesmo era vontade de ser logo grande. Contava nos dedos os dias para completar uma mão inteira de idade. Com duas, eu já seria uma mocinha. Mas o bom mesmo era ter três mãos de idade e já ser grande o suficiente para usar batom, sutiã, salto alto e sair e namorar e poder fazer um mundão de coisas que os adultos só deixam a gente fazer quando se tem três mãos de idade.

Mordeu um pedaço do cachorro-quente, deixou escorrer um pouquinho de molho no lado esquerdo da boca. Não tinha engolido tudo ainda quando contou que o avô do Bernardo também iria ao cinema com eles, se ele não tivesse morrido uns dias antes. Pegou um guardanapo, limpou a mão e pediu mais um pouquinho de refrigerante. Continuou a comer como se aquela informação fosse a mais trivial de todos os tempos. O avô do Bernardo tinha morrido e isso era normal. Nada que ele tivesse que contar com um pouco mais de pesar na voz, um pouco menos de felicidade nos olhos, um pouco menos de cachorro-quente na boca. As crianças lidam muito melhor com a vida e, assustadoramente, com a morte. Elas parecem aceitar melhor a idéia do ciclo do que nós e isso se dê talvez por elas terem só iniciado.

Lembrei-me de que, quando tinha cinco anos, eu brincava com uma caveira que minha mãe comprara na faculdade. Uma caveira de verdade. Ela usava para estudar anatomia e eu, para me divertir. Movimentava a mandíbula do Zé Petrônio (sim, ela tinha nome!) para cima e para baixo e inventava diálogos esdrúxulos. Fazia teatrinho para a família ou para as bonecas mesmo. Costumava abrir a tampa da cabeça do Zezé. Ficava olhando lá dentro e achando que eu não devia ser feia daquele jeito. Provavelmente, em vida, Zé era um homem daqueles bem horríveis e era por isso que o esqueleto não podia ser bonito. Mal tinha dentes, coitado! Nariz, então! Só tinha mesmo dois grandes buracos. Imaginava um rosto magro, bem magro, sem nariz e com poucos dentes e aquela era a imagem que tinha do homem José Petrônio de Oliveira da Silva. O sobrenome era emprestado de uma amiga do colégio.

Contudo, naquele reencontro o que mais me emocionou não foi lembrar de que eu queria ser logo grande e que hoje já quase não basta o auxílio dos dedos dos pés para contar minha idade. Também não foi a recordação de que tinha a morte como uma coisa natural, enquanto hoje dou toda minha energia por um fio de vida, por um dia a mais, por um novo momento para guardar na memória...

Ele pegou um caderninho e se pôs a desenhar as palavras. Desenhava com bastante capricho. Pediu para que eu prestasse bastante atenção e não confundisse L e E, um era maior do que o outro, advertiu-me. E escreveu "lua", "papai", "mamãe", "titia" com uma mãozinha tão pequena, mas já forte e agil o suficiente para traçar as letras no papel. Cada palavra escrita era um monte de elogios por parte da família e um sorriso tímido por parte do artista.

Quem me dera voltar ao tempo em que minha letra corrida ainda caminhava, lentamente, de mão-dada, em que eu sabia exatamente quanto esforço cada palavra exigia para ser escrita, em que eu sabia que algumas exigiam mais respeito, mais tempo e mais dedicação. Confesso ainda reencontrar aquela menininha toda vez que termino de escrever um texto e revejo em mim o brilho nos olhos de alegria, o sorriso de satisfação e o suspiro de tarefa cumprida tais quais como quando ela, pela primeira vez, escrevera "inconstitucionalissimamente" e fora correndo mostrar aos pais que fingiram não perceber a falta de algumas letras e as cedilhas sobressalentes, culpa da revisão despreocupada e da falta de experiência. Eu ainda releio o texto uma centena de vezes assim como ela, incrédula, relia aquela palavra enorme escrita no papel, lembrando-me da dificuldade de cada palavra como ela, de cada letra. Eu só quero lembrar em qual parte do caminho que me trouxe aqui ficaram a inocência, a sabedoria e a coragem daquela menina. Espero reencontrá-la mais algumas vezes para poder responder essa pergunta, muito embora, no fundo, já saiba sua resposta. Mas isso fica para o próximo texto.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

O que seria de nossas vidas sem os nossos primos ou irmãos sem dente?!
Muito legal o texto, de uma verossimilhança incontestável.
Parece até que ouvi a pequena criança me contar a história.
Por sinal, o cachorro-quente estava uma delícia.

12:42 PM

 
Blogger Amanda Schuab said...

Tô ficando sem criatividade pra comentar...
Em todos os textos eu falo a mesma coisa...
Mas a verdade eh q eu gostei muito mesmo...
Mas acho q agora vou começar a falar: "q texto ruim, vai aprender a escrever, garota!!", assim pelo menos, muda o comentário...Hehehhe =p
Beijinhos!
P.S: Tô caminhando pro meu zero amanhã...

5:47 PM

 

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