estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

Agosto 26, 2004

Cotidiano

Ela não sabia o que a acometera aquele dia. Talvez a explosão de hormônios em virtude do ciclo - desculpa que serve para qualquer coisa, desde choro incopioso no meio da festa até cara azeda em domingo de chuva, deitada ao sofá, comendo pipoca.

Tinha acordado com o pé esquerdo, de mal com a vida, detestando suas unhas vermelhas - não podia ter escolhido uma outra cor?. Não reconheceu sua expressão naquele rosto disforme e inchado de sono. Odiava acordar cedo. Aliás, odiava muita coisa. Mas nunca dizia a palavra ódio porque atraia más energias. Mas hoje estava com vontade: eu odeio!

Tinha que tomar banho. Odiava o fato de não ter ido tomar banho antes de dormir, o que dispensaria a ducha àquela hora da madrugada. Odiou ter estado tão cansada que não tinha mais forças para se levantar quando se deitava. Odiava a água que demorava a ficar quente. Odiava a água que ficava quente demais. Odiava ter que ficar regulando a temperatura o tempo todo.

Odiava tomar leite puro, mas o fez como forma de penitência por um pecado que não cometeu. Não quis comer nada e saiu de casa com gosto de estômago vazio e de pasta-de-dente de menta.

Olhou seu reflexo nos carros estacionados na calçada e odiava estar gorda daquele jeito. Logo, logo sairia rolando, tinha certeza. Odiou não ter corrido rápido o suficiente para alcançar o ônibus - era aquela gordura que se acumulava em volta do quadril. Odiou o trocador que demorou a lhe dar o troco. Odiou que houvesse tantas pessoas se espremendo e se roçando naquele espaço apertado entre os bancos. Odiou a moça gorda que passou e arrastou a bolsa de couro por seu rosto. Odiou ter que desculpá-la.

Desceu do ônibus e odiou estar tão atrasada. Odiou o relógio que toca atrasado, o ônibus que anda apressado e a moça gorda que bate com a bolsa no rosto dos passageiros. Odiou tudo até que avistou a praia de Ipanema. E amou estar ali.

Agosto 25, 2004

Par...

- Carlos.
- Marta.

Não falaram mais. Fizeram um brinde e viraram os copos simultaneamente, sem desprender seus olhares um do outro. Ele lhe estende sua mão e ela aceita ser conduzida até um lugar mais reservado. Não trocam palavras, mas, através de seu olhar, ela percebe o convite.

Eles não se conheciam, mas estavam certos de que a vontade de estar juntos duraria mais uns trinta e sete anos. Talvez fosse suficiente para a vida toda. Mas isso só o tempo viria a lhes dizer.

Agosto 23, 2004

Lar...



Ela decidiu que iria surpreendê-lo aquela noite. Chegou mais cedo do trabalho, deitou a pasta preta pesada em cima do sofá. Foi largando a roupa pela casa, a caminho do banheiro.

Ligou o chuveiro antes de entrar. Olhou-se no espelho com o olhar clínico das mulheres. Examinou cada traço, cada poro, cada marca. Percebeu que estava envelhecendo por causa das rugas de expressão que surgiam no canto dos olhos e ao redor da boca. Fez mil e uma caretas, abriu e fechou sua expressão uma centena de vezes. O barulho da água caindo lhe soava convidativo e o vapor já embaçava o espelho. Entrou.

Deixou que ela lhe caísse sobre o corpo numa temperatura que não enrugasse ainda mais sua pele. Inclinou a cabeça para molhar o pescoço. Adorava quando ele lhe beijava o pescoço. Lembrava-se com perfeição da primeira vez que ele havia se aventurado naquela parte quase sempre coberta pelos longos cabelos. Lembrava-se do estranhamento inicial e das mil borboletas na barriga. Lembrava-se de sua timidez fingida e de como nunca havia conseguido enganá-lo.

Passou a mão pelo corpo, na intenção de redescobrir a menina que outrora havia sido descoberta. Sentiu- se menos firme, mais áspera, menos leve. Talvez fosse só impressão. Tornou a viajar a mão pela pele. Sentiu-se menos firme, mais áspera, menos leve.

Teve vergonha. Vergonha de se expor daquela forma à menina que um dia havia sido. Sentiu medo da decepção da menina ao ver seu corpo naquele estado de deterioração. Quis sair dali, mas a morte é a única saída do corpo. Quedou.

Pegou o sabonete, deslizou-o lentamente como se sua pele fosse rasgar-se em mil pedaços. Abriu mais as válvulas para que a água jorrasse com mais força e varresse qualquer vestígio de espuma o mais rápido que pudesse. Não se importou com a temperatura.

Fechou as torneiras, alcançou a toalha. Saiu molhada do banheiro, com o pano mal enrolado pelo corpo, permitindo que os pingos traçassem seu caminho de volta ao quarto. Abriu a porta do armário. Escolheu um pijama de calças e mangas longas e já não se importava se fazia calor.

Sabia que ele chegaria dali a alguns instantes. Não queria que ele surpreendesse seu corpo de menina machucado pelo tempo, cheio de marcas e sem vida. Tinha vergonha do que se tornara. Aquela morada lhe era estranha. Morava em uma casa que não era a sua e só agora havia se dado conta. Ou talvez fosse sim a sua. Mas fazia tanto tempo que não a arrumava... Estava cheia de pó, mofo, teias de aranha. Os cômodos permaneciam nos mesmos lugares e por isso ainda podia transitar por ela com alguma familiaridade, mas as marcas de infiltração na parede e o mal cheiro do carpete realmente faziam com que ela sentisse repulsa por aquele lugar horrendo. Não se lembrava de ter se decuidado tanto. Talvez, na pressa do dia-a-dia, tivesse deixado a louça acumular e fossem os restos de comida do passado que estivessem alimentando as baratas do presente. De jeito nenhum poderia mostrar a ele que havia se tornado uma pessoa tão descuidada. Ele próprio se recusaria a reconhecer naquela morada imunda o que já havia sido um dia seu palácio.

Ouviu barulho de chaves na porta. Pulou para a cama o mais de depressa que pôde. Tinha vergonha. Não poderia encará-lo. Ele perceberia.

Da cozinha, ele chama seu nome, mas fica sem resposta. Ela ouve o barulho dos sapatos que se arrastam pelo chão, do armário que se abre - tenho que colocar óleo nas dobradiças -, dos copos que se tocam, da água que abandona a jarra, do copo que encontra a pia, do interruptor que acende a luz do corredor.

Ele adentra o quarto e lá está ela: de olhos fechados, deitada, imóvel, sem respirar e de pijamas em pleno verão. Ele percebe as gotas d'água que agora formam um filete no chão - tomou banho não faz muito tempo-, olha a toalha molhada em cima da cama. Ele se senta, desamarra os sapatos apertados de cansaço, desabotoa a camisa. Lá está ela de olhos fechados, deitada, imóvel, sem respirar e de pijamas em pleno verão.

Ele a observa longamente e pensa em como aquela menininha que ele conhecera na adolescência pudera se tornar uma mulher tão linda, tão madura, tão segura de si. Lembrou-se de como ela era encantadora quando acordava de cabelos bagunçados, olhos inchados, hálito morno e recusava qualquer gesto de carinho de sua parte. Ninguém é gente a esta hora da manhã - ela dizia. Mas como ele se sentia atraído por aquela mulher...


Agosto 21, 2004

Olhos de vidro, corpo de pedra



É verdade que eu, de alguma forma, já previa aquela notícia. Mas isso de nenhuma forma aliviou seu impacto. Minhas lágrimas prévias, meus pensamentos premonitórios, minhas adiantadas certezas incertas. Não. Nada daquilo me serviu de conforto quando ouvi, com todas as letras, o que já sabia, mas preferia fingir não saber.

É difícil descrever qual processo metabólico-psicológico se deu em mim naquele momento. Ainda atordoada pelos eufemismos mal disfarçados de minha mãe, não sabia que forças me paralisavam e me impediam de chorar, de gritar, de respirar. Como é difícil digerir más notícias... Elas parecem suspensas no ar, entre a desejada inexistência e a dura realidade. Só se materializam quando nós a transmitimos a um outro alguém.

Levantei-me e, com olhos de vidro, dirigi-me a meu irmão. Precisava informá-lo também. Parei. Não era justo que ficasse sem saber a verdade, assim como não era justo que sofresse tanto quanto eu. Ele ainda é pequeno demais para saber. Mas com quinze anos nunca se é pequeno demais para saber. Contei.

Ele permaneceu deitado no chão do quarto numa posição que me parecia muito desconfortável enquanto eu, entre lágrimas, passava-lhe a notícia. Ele intercalava o olhar: ora eu, ora a tevê. Achei que isso era um recurso para se afastar daquilo que estava ouvindo. Ele balançava a cabeça para me mostrar que sabia que eu estava ali, à porta, falando algo que ele não queria escutar. Não disse nada. Virei-me e fui à sala.

Olhos de vidro não vêem tevê, mas fingi que assistia a alguma coisa que até hoje desconheço. Lágrimas de rio desciam meu rosto marcando seus percursos a fim de nortear as seguintes. Olhos de vidro. Corpo de pedra pesada, preta, polida, impossível.

Meu irmão aparece à porta e, ao me ver naquele estado, aproxima-se. Senta-se ao meu lado, passa seu braço por detrás de meu corpo de pedra e sussurra ao meu ouvido: temos que ser fortes.

Supernova



O apelido surgiu por motivo de uma fatalidade, mas logo eu virei supernova. Não sabia quantas responsabilidades o novo nome me traria. Achava mesmo paradoxal, pois nunca tive pretensões astronômicas. Talvez ser estrela seja o meu destino. Por enquanto, vou vivendo sem esperar a explosão, mas certa de que ela vai acontecer.