estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

Setembro 22, 2004

Sedução



Ela existia. Tinha começo. Tinha meio. Talvez não tivesse um fim muito bem definido, todavia ele poderia tomar conformes com o decorrer dos fatos, como houvera acontecido tantas outras vezes. Não conseguia. Ela existia e ele sabia, mas não lhe passava pela garganta. Atravessava sua cabeça, de um lado a outro, como menina travessa que brinca de pega. Podia descrevê-la com perfeição, mas tinha dúvidas se algum dia viria alcançá-la e isso o angustiava. Ela o pertencia da forma mais etérea que a posse e a propriedade podem assumir; bolhas de sabão que, ao menor toque, esvaíam-se pelo ar, gotas de suor que evaporavam deixando somente o gosto salgado (para ele, amargo) de já ter tocado aquela pele.

Ela tinha forma, pretensões de conteúdo, algum possível desfecho de fácil identificação. Alguns possivelmente chorariam, embora não fosse essa sua intenção. Não era alegre e condizia exatamente com o momento que ele vivia, contudo não se materializava. Estava lá, fervilhando idéias, e ela não as permitia florescer. Sentia-se angustiado. Não queria nada que não ela e ela não queria nada. E ponto. Agia como se fosse independente e pudesse fugir à sua vontade. E talvez fosse. E, de fato, fugia. Ela sabia que era boa demais para ele e, mesmo assim, continuava o jogo da sedução como se, em algum ponto, fosse ceder. E ele a acompanhar seus movimentos, suas nuances, seus percursos com os olhos vidrados de homem sedento de satisfação. É verdade que poderia querer outras. Muitas estavam ali, à sua disposição, quiçá algumas antigas, não seria difícil reatar aquelas ligações deixadas no passado. Mas era a ela que ele queria. As demais não lhe importavam.

Ainda com o papel em branco, batia a caneta na mesa no mesmo ritmo há horas. Deveria haver um jeito de aprisioná-la. Precisava de um plano.

Setembro 14, 2004

A Saga

Não sei onde acordei com a cabeça hoje. Certamente, não em cima do pescoço, o que tem sido, aliás, uma constante ultimamente.

O relógio despertou às 6:45 de propósito. Faço isso sempre. Gosto de me dar o luxo de dormir os mais cinco minutos que o celular me permite no modo "soneca". Ele toca, eu o alcanço ainda de olhos fechados, aperto o OK e volto a repousar a cabeça para dormir os "mais cinco minutos" que, para mim, duram o tempo de uma hora ou mais. E o faço com o prazer de olhar as horas e dizer: Não.... Só mais cinco minutinhos. Hoje não sei o que aconteceu. Só sei que não tocou.

Acho que essa tecnologia matrix da comunicação via telefone ("libertem-me da máquina!") tomou o meu inconsciente e ouvi, sonhando, o telefone da minha casa tocar. Acordei com o susto. Olhei para o relógio que apontava meu atraso. Sorte minha ter havido preparado tudo no dia anterior. Não fosse isso, não conseguiria sair dentro dos cinco (famosos) minutos em que pulei da cama, despi-me, vesti-me, alcancei as chaves do carro e chamei o elevador. Não... É verdade... Eu não escovei os dentes, não lavei o rosto, não comi nem uma migalha de pão. Mas não podia. Não havia tempo. Tinha que chegar em Botafogo em menos de vinte minutos.

Entrei. Tirei o carro da vaga com mais velocidade e menos precaução do que o usual. Andei pelos corredores em segunda marcha (grande avanço para quem se contenta com a velocidade quase nula da embreagem) e logo já estava na rua. Pensa. Pensa. Pensa. Qual seria o caminho mais rápido? Não podia pegar o trânsito infernal da Haddock Lobo. Não podia me deparar com aqueles ônibus que atravessam meu caminho sem sinalizar, com as crianças uniformizadas que atravessam a rua inadvertidamente, com a vontade de gritar de desespero que atravessa meu corpo sempre que passo por lá e fico horas sem sair do lugar. Haveria de existir outra alternativa. E, de fato, havia.

Resolvi que iria pela Presidente Vargas, numa pista reservada aos ônibus. Nunca passava ninguém por lá e ela pouparia o tempo de fazer o contorno sempre tumultuado do Maracanã e o transtorno da Haddock Lobo. Fui. Tudo bem... Fui só porque um Santana cinza resolveu ir antes de mim e, sendo assim, eu não seria multada sozinha, caso houvesse alguma patrulha me esperando no final da pista. Fui rezando para todos os santos (e olha que não sou católica), pedindo por tudo que não recebesse uma multa. Nem dinheiro para a proprina eu tinha. Santo dia...

Mas deu tudo certo. Sorte minha, os guardas de trânsito perderam a hora como eu e não estavam lá para me punir. Segui, feliz e contente e me achando muito mais "malandra" do que os outros motoristas. "O mundo é dos espertos".

Continuei o caminho. Desliguei o rádio. Não suporto mais ouvir propaganda política. Qualquer jingle, de qualquer espécie, arrepia meus pêlos. Fui de uma pista a outra, sempre estudando cuidadosamente a situação pelos retrovisores e logo já estava no túnel. REBOUÇAS.

O que eu estava fazendo ali? Eu queria ir para Botafogo e estava a caminho da Lagoa. Não podia acreditar. Onde havia deixado a cabeça? Como conseguiria sair dali? Não cogitava a possibilidade de retornar logo depois do túnel, o trânsito estava horrível em direção à Tijuca. Andei pela faixa da esquerda, a noventa por hora, o que nunca faço. A única prudência que tomei foi não ultrapassar o limite de velocidade. Cheguei à Lagoa. Burrice a minha. Na faixa da esquerda, não tive tempo de pegar o caminho que indicava Humaitá, à direita. Tive que seguir. Talvez fosse até melhor. Não saberia mesmo me aventurar por aquelas bandas. Detesto dirigir em lugares que não conheço. Sinto-me como andando de vendas ou algo parecido. A única alternativa que encontrei foi fazer o único percurso que conhecia: até Ipanema.

No caminho, uma placa: RETORNO. Embaixo: BOTAFOGO. Peguei. Fiz a curva numa velocidade um tanto maior do que o recomendado, os pneus reclamaram, apesar de não ter lhes dado o direito. O que estou fazendo? Não sei ir por esse caminho? Outra placa: RETORNO. Peguei novamente. Resumindo: o pensamento é circular e meu trajeto, oval. Voltei à pista que me levaria à Ipanema.

Cheguei. 7:54. Nunca havia dirigido tão rápido na minha vida. Ainda não estava atrasada. Não se não estivesse em Ipanema e o trabalho fosse em Botafogo.

Cruzei a Garcia D'Ávila e caí na praia. Um ímpeto tomou meu corpo naquela hora. O sol já forte, corpos mais fortes ainda já se movimentavam e se cruzavam na pista da ciclovia, as ondas... Quase estacionei o carro e fiquei ali. Mas o senso de responsabilidade foi maior. Ah, se o hedonismo falasse mais alto dentro de mim de vez em quando...

Ainda me restavam alguns minutos. A tolerância máxima é de quinze de atraso. Corri. E, Murphy que não me ouça, consegui pegar todos os sinais da orla abertos. Mal pudia acreditar. Algum dos santos havia ouvido a minha prece. Seja ele qual for, obrigada.

Logo já estava em Copacabana e o entusiasmo era tanto que quase perco a entrada para o túnel que dá passagem para Botafogo. A alternativa que me pareceu mais plausível foi a de estacionar o carro na faculdade e ir ao trabalho de ônibus. Voltaria a pé depois, sem problemas, como já havia feito tantas vezes antes de me motorizar.

Estacionei na vaga mais fácil. Apertei os passos. Entrei no primeiro ônibus que passasse pela Praia de Botafogo. Paguei dez centavos a mais pelo ar-condicionado que nem refrescava tanto assim. Mas não havia tempo para reclamações.

Foi mais rápido do que imaginava. 8:14 eu adentrava os portões do prédio, 8:15 eu passei o cartão. Ufa! Trabalho cumprido, ou melhor, agora poderia começar o trabalho. Minha vontade era a de deitar no chão e respirar fundo umas trinta vezes só pelo alívio que sentia. Mas subi as escadas pulando um degrau e quase ninguém notou meu atraso a não ser a máquina de pontos que vai, inclusive, dedurar-me no relatório com os horários. Também não importava. Sentei-me ainda com as bochechas vermelhas sedentárias, uma aluna simpática me entregou duas redações: quero que VOCÊ corrija. Era só mais um dia como outro qualquer, apesar de totalmente diferente. Dei-me conta de como era escrava do tempo e de como ele limitava minha vida, na verdade, de como ele limita a vida de todos que vivem em função dele, de todos, todos, portanto. Corri para alcançá-lo e ele continuava andando a passos largos a minha frente, sem nunca olhar para trás. Que sensação desesperadora. Foi aí que me dei conta de estava presa em uma cela coletiva, dentro de um sistema objetivo e eficaz, que age em prol de... Não sabia de quem. Não sabia com que interesses. Não sabia por quê. Só sabia que era a primeira vez que me sentia assim. Talvez eu fosse uma espécie de Neo do mundo real (real?), contudo ainda não sentia o impulso característico de todo "THE ONE". Mas tudo isso passou no segundo em que olhei o relógio, percebi que precisava corrigir aquelas duas redações em oito minutos e abri a mochila para pegar a caneta vermelha.

Ouvi boatos que tem havido reclamações quanto às conversar em horário de trabalho. Cabeças irão rolar, dizem. Não me importa. A minha já rolou há muito tempo. Inclusive, ligue-me se você, por acaso, encontrá-la por aí. Por favor?! Obrigada!