estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

Novembro 30, 2004

Baianidade



Não havia nada melhor para ela do que ficar deitada no chão duro do quarto, olhando pro teto, ouvindo uma boa música. Nada lhe esvaziava mais a mente das preocupações e das atribuições do dia-a-dia do que a melodia que lhe atravessava os ouvidos, varrendo-lhe os pensamentos, deixando só um espaço limpo e branco, enquanto tentava encontrar uma posição menos desconfortável no chão gelado. Olhava as fotos na parede e podia reviver intensamente cada momento. Re-ria, re-beijava e re-sentia todos aqueles instantes congelados pela luz do flash, pendurados no tempo, enquadrados no espaço.

Hoje ela não sabia o que havia lhe acometido. Era uma preguiça baiana daquelas que fazem o sujeito reclamar até do esforço do respirar. Talvez fosse a música de Caetano na voz de Gil que soava do amplificador, trazendo toda aquele ar de Bahia pro quarto, a culpada por ela ter deixado suas obrigações e ter se deitado. Respirava a brisa de Itapoã, balançava-se na rede imaginária amarrada nos coqueiros da beira-mar e lia um livro etéreo de Jorge Amado. Êta baianidade boa, meu Deus...

Novembro 26, 2004

Nosso velho amor novo



A história deles é engraçada, porque era bastante improvável que começasse daquela forma.

Ela era bailarina desde os quatro e carregava nas costas a responsabilidade de ser tudo o que sua mãe não havia podido ser. Aquele discurso no tom de lamentação tantas vezes repetido já havia sido decorado e ela já não sabia até que ponto fazia as coisas porque queria ou porque tinha vontade. Às vezes, tentava procurar dentro de si um desejo que lhe fosse genuíno, mas logo entregava-se à facilidade de fazer o que fosse para não ter que ouvir as velhas lamentações.

Ele era de esquerda. Na verdade, não sabia muito bem o que era ser de esquerda, mas aquilo sempre lhe havia soado politicamente correto. Não era revolucionário, como pretendia a maioria dos garotos de sua idade, contudo gostava de fingir que já havia participado de muitas manifestações. Já havia estado presente em uma porção delas, embora ninguém nunca o tivesse visto: "Você sabe como as pessoas somem no meio da multidão...". Os outros sempre sabiam.

Nâo. Eles não se esbarraram, acidentalmente, no vai-vem do centro da cidade. A pasta dela, que voltava apressada do colégio normal, também não caiu no chão, fazendo com que todas as folhas se espalhassem pela calçada. Ele não tentou ajudá-la, pediu mil perdões, endireitou os óculos que haviam ficado tortos com a queda. Ela não havia lhe sorrido um sorriso gentil, ainda agachada, recolhendo os papéis. Suas mãos não haviam se encontrado sem querer quando ele tentou colocar um caderno na pasta. Ela não se virou, sentido uma pontinha de vergonha e ele não tentou falar algo que quebrasse o constrangimento do momento. Ele não olhou seu rosto e percebeu a pintinha charmosa que ela trazia perto do olho direito, quebrando a monotonia da pele branca de porcelana. Ela não viu os óculos que davam a ele o encanto intelectual dos autores dos livros que lia. Ela não partiu, deixando para trás, esquecido no asfalto, o folheto de sua apresentação daquela semana. Ele também, ao vê-lo no chão, não tentou gritar alguma coisa que lhe chamasse a atenção. Ele não fez nenhum esforço para se fazer ouvir no murmúrio barulhento dos transeuntes. Ele não leu o papel e o guardou no bolso, pensando que iria à apresentação só para vê-la novamente. Não pensou em usar a desculpa do papel esquecido na calçada para começar a primeira conversa. Não imaginou que lhe beijaria a mão quando se apresentasse.

Não. Ele não havia percebido sua presença solitária naquela mesa esquecida no canto esquerdo do salão. Não havia visto seus pés que balançavam em ritmo de tédio, o sapato solto do calcanhar. Não havia se perguntado o que uma menina tão bonita fazia ali, sozinha, com a mão no rosto, esmagando a bochecha que abrigava a boca que, de tempos em tempos, abria-se de sono e prostração. Não havia se aproximado, sem se fazer notar, e a convidado para a valsa. Ela não esboçou nenhum sorriso ao simpático convite e se deixou seduzir pelo jovem cavaleiro. Eles não dançaram a noite toda, acreditando que haviam encontrado seu par ideal. Ele não fez questão de acompanhá-la até sua casa e ela não virou o rosto, fingindo não perceber o beijo que ele pretendia lhe dar. Ele não foi embora sabendo que o beijo tinha sido apenas adiado e pensando que, por ela, valia a pena esperar.

Não. Eles não se conheceram na viagem de trem que fizeram a São Paulo. Ele não percebeu a menina que chorava baixinho, olhando pela janela o cenário feio que aquele retângulo de ferro encerrava. Ele não lhe estendeu o lenço que carregava sempre consigo no bolso e ela não o aceitou, fazendo com que suas lágrimas corressem ainda com mais pressa. Ele não havia lhe dito que uma moça tão linda não devia chorar, por qualquer que fosse o motivo. Ela não lhe escondeu que estava grávida e que a mãe havia lhe mandado pra São Paulo até que ela tivesse o filho e que aquilo era a desgraça da família. Ela não lhe contou que a criança que carregava na barriga era fruto de uma noite, em que fugira de casa para encontrar o namorado. Não lhe contou que havia sido difícil segurar o primeiro desejo que ela sabia ser só seu e de mais ninguém. Não lhe disse também que fez isso, em parte, para provar a si mesma que era independente. Ele não havia feito a gentileza de não perguntar o porquê da choradeira. Também não havia se levantado para buscar um copo d'água. Eles não passaram o resto da viagem conversando e ela não descobriu nele mais do que um amigo, um pai para seu filho adulterino.

Agora ele tem 75, ela, 71. Amanhã irão se conhecer. Ela estará sentada no banco da praça a ler um livro e ele se recostará a seu lado. Ele reclamará do calor e ela concordará com os olhos ainda fixos no livro. E esse vai ser o primeiro parágrafo do próximo romance que ela vai ler. Mas isso se ele não a ficar importunando com suas queixas sobre a temperatura. Esses dois... Santa paciência!

Novembro 07, 2004

Reencontros

Fazia mesmo muito tempo que a gente não se encontrava e aquilo para mim era como um reencontro comigo mesma. Já havia me esquecido de que as crianças passam por processos de metamorfose muito mais rapidamente (e muito menos dolorosamente) do que os adultos e ter tido com ele aquele dia me fez lembrar a infância que ficou guardada em algum lugar do meu passado, possivelmente numa caixa de papelão cheia de sonhos impossíveis, vontades de voar, cartinhas de amor nunca enviadas e alguma bonecas louras de cabelos cortados. Talvez fosse essa aquela caixa esquecida no canto, coberta por uma camada fina de poeira cinza, que hoje serve de suporte aos arquivos de histórias e às pastas com as imagens das ceias de Natal e das poucas viagens que fizemos. Verdade é que não precisei abri-la. Ele fez com que eu me lembrasse, com perfeição, de tudo que guardava ali dentro.

Tem cinco anos, quase seis. Sentou-se ao meu lado na hora do cachorro-quente e fiz questão de fazer todo tipo de pergunta a que as crianças estão acostumadas a responder: Ele me contou que, sim, gostava da escolinha, seu melhor amigo é o Bernardo e a aula de que ele mais gosta é a de Educação Física. Disse que havia ido ao cinema dia desses. Viu um filme "maneiro"! A mãe do Bernardo quem levou. Aliás, o Bernardo tem um irmão de um ano, quase dois. Tão pequenininho, coitado!

Lembrei-me de que, quando tinha cinco anos, eu tinha mesmo era vontade de ser logo grande. Contava nos dedos os dias para completar uma mão inteira de idade. Com duas, eu já seria uma mocinha. Mas o bom mesmo era ter três mãos de idade e já ser grande o suficiente para usar batom, sutiã, salto alto e sair e namorar e poder fazer um mundão de coisas que os adultos só deixam a gente fazer quando se tem três mãos de idade.

Mordeu um pedaço do cachorro-quente, deixou escorrer um pouquinho de molho no lado esquerdo da boca. Não tinha engolido tudo ainda quando contou que o avô do Bernardo também iria ao cinema com eles, se ele não tivesse morrido uns dias antes. Pegou um guardanapo, limpou a mão e pediu mais um pouquinho de refrigerante. Continuou a comer como se aquela informação fosse a mais trivial de todos os tempos. O avô do Bernardo tinha morrido e isso era normal. Nada que ele tivesse que contar com um pouco mais de pesar na voz, um pouco menos de felicidade nos olhos, um pouco menos de cachorro-quente na boca. As crianças lidam muito melhor com a vida e, assustadoramente, com a morte. Elas parecem aceitar melhor a idéia do ciclo do que nós e isso se dê talvez por elas terem só iniciado.

Lembrei-me de que, quando tinha cinco anos, eu brincava com uma caveira que minha mãe comprara na faculdade. Uma caveira de verdade. Ela usava para estudar anatomia e eu, para me divertir. Movimentava a mandíbula do Zé Petrônio (sim, ela tinha nome!) para cima e para baixo e inventava diálogos esdrúxulos. Fazia teatrinho para a família ou para as bonecas mesmo. Costumava abrir a tampa da cabeça do Zezé. Ficava olhando lá dentro e achando que eu não devia ser feia daquele jeito. Provavelmente, em vida, Zé era um homem daqueles bem horríveis e era por isso que o esqueleto não podia ser bonito. Mal tinha dentes, coitado! Nariz, então! Só tinha mesmo dois grandes buracos. Imaginava um rosto magro, bem magro, sem nariz e com poucos dentes e aquela era a imagem que tinha do homem José Petrônio de Oliveira da Silva. O sobrenome era emprestado de uma amiga do colégio.

Contudo, naquele reencontro o que mais me emocionou não foi lembrar de que eu queria ser logo grande e que hoje já quase não basta o auxílio dos dedos dos pés para contar minha idade. Também não foi a recordação de que tinha a morte como uma coisa natural, enquanto hoje dou toda minha energia por um fio de vida, por um dia a mais, por um novo momento para guardar na memória...

Ele pegou um caderninho e se pôs a desenhar as palavras. Desenhava com bastante capricho. Pediu para que eu prestasse bastante atenção e não confundisse L e E, um era maior do que o outro, advertiu-me. E escreveu "lua", "papai", "mamãe", "titia" com uma mãozinha tão pequena, mas já forte e agil o suficiente para traçar as letras no papel. Cada palavra escrita era um monte de elogios por parte da família e um sorriso tímido por parte do artista.

Quem me dera voltar ao tempo em que minha letra corrida ainda caminhava, lentamente, de mão-dada, em que eu sabia exatamente quanto esforço cada palavra exigia para ser escrita, em que eu sabia que algumas exigiam mais respeito, mais tempo e mais dedicação. Confesso ainda reencontrar aquela menininha toda vez que termino de escrever um texto e revejo em mim o brilho nos olhos de alegria, o sorriso de satisfação e o suspiro de tarefa cumprida tais quais como quando ela, pela primeira vez, escrevera "inconstitucionalissimamente" e fora correndo mostrar aos pais que fingiram não perceber a falta de algumas letras e as cedilhas sobressalentes, culpa da revisão despreocupada e da falta de experiência. Eu ainda releio o texto uma centena de vezes assim como ela, incrédula, relia aquela palavra enorme escrita no papel, lembrando-me da dificuldade de cada palavra como ela, de cada letra. Eu só quero lembrar em qual parte do caminho que me trouxe aqui ficaram a inocência, a sabedoria e a coragem daquela menina. Espero reencontrá-la mais algumas vezes para poder responder essa pergunta, muito embora, no fundo, já saiba sua resposta. Mas isso fica para o próximo texto.