estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

fevereiro 17, 2005

Sobre (meu) amor e geometria...



Tinha dois amores. Era João e era Gabriel.

Era João como tantos outros e, no entanto, era um só. Era Gabriel como outros tantos e não era só mais um. E, sem que eles soubessem, amava os dois ao mesmo tempo.

Vez ou outra, um notava algum possível distanciamento, mas ela desconversava, dizia que era coisa pouca, que não valia a pena falar. Mas era difícil conter o pensamento que, às vezes, voava até o outro pra reviver um momento ou curtir a saudade.

João tinha os olhos mais lindos do mundo e cílios longos que pareciam varrer a paisagem cada vez que movimentava suas pálpebras. Gabriel tinha mãos de anjo e bastava que ele procurasse as suas para que ela se sentisse mais segura. João tinha um sorriso de criança, meio torto, meio de banda. Um sorriso que denunciava que aquele nome sacrossanto escondia, às vezes, intenções pouco imaculadas. Gabriel tinha braços sempre abertos e o peito que ela gostava de fazer de travesseiro. João era um grande contador de histórias, tinha um repertório completo sobre os mais diversos assuntos e não hesitava contá-las ao primeiro que se dispusesse a ouvir. Mas era Gabriel quem estava sempre ao seu lado disposto a escutar toda e qualquer lamentação, mesmo aquelas descabidas por conta do ciclo. João adorava fazer amigos, falava com qualquer indivíduo com a intimidade de um velho conhecido. Gabriel era mais contido, temia sentir-se deslocado em seu novo círculo de amizades. João a acompanhava aos shows de música popular. Gabriel aceitava ir ao cinema para assistir a um documentário português. João, por ela, havia lido um livro inteiro. Gabriel, por ela, arriscava a conjugação de alguns verbos em alemão. João agora não jogava mais papel na rua. Gabriel agora lavava as mãos todas as vezes antes de abrir a geladeira. João fazia de tudo para não vê-la triste. Gabriel fazia de tudo para vê-la feliz.

Era mesmo uma menina de sorte. Aquele triângulo amoroso era um triângulo isósceles.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Sem dúvida o melhor texto já publicado na história da literatura brasileira. Ou melhor, uma obra rara da literatura mundial. É impressionante como você consegue criar vida aos personagens. Parece até que eles realmente existem. Na verdade parece até que convivemos com eles diariamente. Obrigado por proporcinar que os meus momentos literáricos sejam os melhores do dia. Melhor ainda é poder agradecer por ser sempre, ou melhor, na maioria da vezes o primeiro a opinar. E caso não entenda qual realmente foi o sentido do texto, ter uma aula ao vivo e com toda atenção do muito. Debater o texto com você é um prazer inenarrável.
Beijos do seu namorado que te ama muito.

2:55 PM

 
Anonymous Carlinha said...

Bom, já que eu estou sendo obrigada a comentar... Brincadeira! É sempre um prazer. Eu sei que eu não comento muito mas é porque eu faço meus comentários ao vivo com você! De qualquer maneira, achei uma linda declaração essa sua. Ainda bem que o João não é desconfiado. Senão ele ia realmente achar que tivesse um outro Gabriel tão parecido com ele! hehe!
Parabéns mais uma vez pelo blog e obrigada pelas idéias! Beijos.

5:29 PM

 
Blogger Amanda Schuab said...

Adorei, Mari!!!
Mas acho um pouco vacilo seu levar dois amores por tanto tempo.. Escolhe um deles logo...=P
Ah, adorei o titulo tb... bem condizente com seu namorado matemático!! Hehehe..
Beijinhos!

5:52 PM

 
Anonymous Renatinha Fróes said...

Mari, aqui estou eu reservando um tempinho para meus comments... que lindo esse texto! Por diversas razões... Muitos beijos com sabor do seu amor pelo João!

12:37 AM

 

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