estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

junho 06, 2005

Casa de Areia e Pólvora

Meia noite e doze, João e eu estávamos no carro, a caminho de casa, depois de havermos concluído que o melhor a fazer era comer as sobras da geladeira:

- “Lá é muito perigoso, melhor não arriscar comer fora a essa hora.”
- “Eu acho tranqüilo, mas não quero correr o risco de dizer isso e depois acontecer alguma coisa. Vou me sentir mal. Mas a verdade é que as coisas podem acontecer em qualquer lugar.”

Da Gonzaga Bastos, entramos à direita, na Rua dos Artistas. Estávamos a menos de trinta segundos de casa. Busquei a bolsa para adiantar as chaves. Novamente à direita, entramos na Ribeiro Guimarães. É quando surgem duas motos atrás do carro. Dois homens em cada uma. Eles começam piscar os faróis, como costumeiramente se faz quando se deseja ultrapassar. “Mas motos não têm problemas com ultrapassagem, elas passam em qualquer lugar”, você diria. João concordaria. Os motoqueiros tentaram ultrapassar, cada moto de um lado do carro. E foi na certeza de que estávamos prestes a ser vítimas de um assalto que ele pisou tão fundo quanto pôde. Passamos imprudentemente pelo sinal vermelho. Às vezes é difícil escolher morrer num acidente ou com um tiro. Mas ele fez a escolha certa. As motos nos acompanharam até abrirmos uma boa distância. Desligaram os faróis e não as vimos mais.

Ainda com o carro numa velocidade considerável, ele usou o freio de mão para fazer a curva fechada que daria numa rua adjacente. Eu ainda estava atordoada com o fato de termos passado tão rápido por um sinal vermelho e por termos nos safado, ninguém sabia até quando, de quatro homens em cima de motos. Decidimos que o melhor caminho para casa seria a contramão. Qual não foi nossa surpresa quando nos deparamos com uma viatura policial! A proteção na porta de casa e nós ainda achamos que vivemos numa cidade perigosa! Ele desceu e deu o depoimento ainda no calor da adrenalina. Eu, com medo, mal(-)ajeitei os bancos para que a distância fosse suficiente para apertar a embreagem e entrei no prédio.

Nós saímos de casa para assistir à “Casa de Areia” na Estação Botafogo. O filme vale pela fotografia, pela história e pela impecável, como sempre, atuação da Fernanda Montenegro – às vezes, chego a duvidar que ela soe tão verossímil na vida real. O areal esquecido no meio do Maranhão é quase como um planeta inabitado, inóspito, inodoro, incolor. A vida das personagens no meio daquele deserto mutante, errante, desconcertante provoca uma sensação paradoxal de prisão no vasto. Prisão fisico-psíquica, onde a ausência de muros indica a total impossibilidade de fuga.

“É claro que eu não conseguiria viver num lugar como esse”, respondi a ele. “Imagina viver longe de onde as coisas se realizam e acontecem, da informação, do upgrade, do cinema, da música, dos livros, dos jornais”.

A vida se provou irônica demais para mim hoje. Agora, pensando melhor, entre a prisão das grades concretas do Rio de Janeiro e a dos grãos de areia do Maranhão, provavelmente, escolheria a segunda. A única certeza que tenho aqui é a de que é só uma questão de tempo até que eu me torne a próxima vítima, direta ou indiretamente. Lá, pelo menos, há a vantagem de se saber de onde o tiro vem.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Mesmo tendo ouvido vc contar a história a narrativa ainda me prendeu. Deve ser bom isso, né? E me poupa de repetir o quanto eu acho q vc escreve bem...

A tirada genial está mais genial aqui. Me lembrou o meu medo de morrer e ir parar num infinito branco. É a mesma coisa, né? Estar preso no nada... assustador mesmo.

Mas sobre essa escolha... ainda continuo com a primeira realidade. Vc prefere estar presa?? Sei não.. aqui pelo menos a gente tem pra onde fugir... ou pelo menos essa ilusão.

Adorei a nossa conversa no Sujinho (o que pode parecer uma comentario inapropriado para o blog, mas a gente sabe q não é..)

Beijos e parabens ( e gostei mto dos outros textos tbm, mas esse comentario ja ta grande o suficiente)

1:23 AM

 
Anonymous Anônimo said...

fui eu que escrevi. Luiza. hahaha

1:24 AM

 

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