estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

julho 13, 2005

Sobre meninos e os pingos de chuva












Foi inevitável. Uma lágrima descuidada caiu na página 32 e ele enxugou depressa seu rastro com medo de que alguém a percebesse. Não se permitia chorar tão fácil, mesmo com o tédio triste que a brisa gelada do inverno soprava da praia. Pijama improvisado, camisa velha, calças compridas e meias. E furos. Haveria quem não o reconhecesse naquele uniforme. O marejado do olhar por detrás do vidro lascado tornava sua imagem ainda mais distinta daquela que o espelho do elevador refletia costumeiramente. Era mesmo um dia atípico, mas chorar já era demais.

Foi ao banheiro, olhou-se no espelho, tirou os óculos. Apertou as pálpebras e a vista míope insistia em ficar embaçada. Abriu a torneira, esperou uns instantes até tomar coragem para tocar a água gelada. Fez das mãos concha, lavou o rosto. Pele áspera da barba por fazer. Alcançou a toalha e enxugou os olhos. A lágrima insistia em ficar lá, guardada entre o abrigo e o precipício, no canto direito do olho. Deveria haver um jeito de ressequi-la.

Na página do livro, o borrão era prova documental e indelével da emoção tolhida.

Mas, para todos os efeitos, ele diria que havia sido um pingo de chuva.

7 Comments:

Blogger João Gabriel said...

gostei muito do seu texto. esse seu personagem com barba por fazer e míope eu não gostei muito não. barba eu até tenho, mas miopia não.
por alguns momentos me vi nesse personagem. esse lance da alemanha(ã) não está sendo tão tranquilo quanto estou tentando acreditar. o mais legal é que cada um ao ler esse seu texto, vai pensar num momento de vida diferente, sendo esse já ocorrido ou não. eu sei que não te falo muito, mas eu tenho muito orgulho de você. você escreve muito bem, seus textos são incansáveis, são atrativos e definitivamente empolgantes. Eu te amo meu amor.

12:49 AM

 
Anonymous Carlinha said...

Texto lindo. Só achei a foto (apesar de linda também) desnecessária no contexto. O texto fala por si e a foto atrapalhou um pouco. Mas é só pra ser chata e fazer alguma crítica construtiva.

12:11 AM

 
Blogger Bruno said...

Genial, fantástico, estupendo, espetacular, fabuloso, primoroso, maravilhoso, incomparável, inigualável, incomensuravelmente magnífico!

Pronto?

2:07 AM

 
Anonymous Cronem said...

É urbano e humano. Portanto, dói.

4:17 PM

 
Blogger Laion Castro said...

Mariana, adorei este seu texto. Muito bom. E o mais impressionante é a conversão natural de um homem com a barba por fazer em um menino que "faz cara de mau e diz que não machucou, não", quando acaba de levar aquele tombo. E como era bom se fossem pingos de chuva as nossas lágrimas incômodas...

Adoro seu cantinho virtual, ele tem um link lá no meu blog.

6:56 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Mari!!!
Fiquei tanto tempo sem ler seus textos super originais que até esqueci o quanto eram bons (só estou dizendo isso pq vc acabou de sair aqui de casa reclamando que eu não entrava mais no seu blog...hehehe)!!!
Amei esse trecho: "A lágrima insistia em ficar lá, guardada entre o abrigo e o precipício, no canto direito do olho", realmente muito bom!

Beijos,
Taty

10:29 PM

 
Anonymous marcella said...

I'll never let you see
The way my broken heart is hurting me
I've got my pride and I know how to hide
All the sorrow and pain
I'll do my crying in the rain

encaixa perfeitamente, não?

1:32 AM

 

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