estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

setembro 11, 2005

Da série "nobres sentimentos" - Alívio



Ao tio Klaus.

3:18. Madrugada. Ele olha o relógio pela trigésima vez desde que havia se deitado, à uma. Vira-se, revira-se, revira-se. Nada. Os pensamentos quase sempre confusos demais para virarem palavras, as inquietações que pareciam adormecer durante o dia, no corre-corre do trabalho, despertavam sempre à noite, faziam ronda em sua cabeça, não o deixavam dormir. Os olhos quentes demais para ficarem fechado. Olhava o céu da janela entreaberta que a mulher mandava ele fechar por causa dos mosquitos, mas que ele abria no momento em que ela adormecia ao seu lado. Sentia-se sufocado naquele quarto, a janela fechada fazia com que seus pensamentos falassem mais alto e espantassem seu sono já sempre tão tímido.

Levantou-se, como fazia quase sempre, o pijama estava ficando quente no corpo que não parava de se mexer. Desceu as escadas, segurou o corrimão. Sempre segurava o corrimão. Passou na cozinha, pegou um copo de água no armário que rangia. Não queria que a mulher acordasse e o mandasse de volta para cama, "você precisa dormir!", ele sabia. Mas era uma necessidade muito mais psicológica do que física. Ele queria mesmo era desligar aqueles pensamentos de sua cabeça por algumas horas, descansar a mente de tudo aquilo que o atordoava, de tudo aquilo que ele queria dizer, mas não sabia como. O corpo já não importava. O corpo era casca e ele sabia disso. Abriu a geladeira, pegou a jarra quase vazia, despejou até a última gota no copo de vidro que a mão esquerda segurava. Não era suficiente. Abriu o filtro e encheu a outra metade do copo. Odiava água morna. Não existia coisa pior no mundo para ele do que água morna, mas ele aceitou. Não era penitência; de repente ele achou que a água morna não era tão ruim. Nem ele mesmo entendeu.

Ligou a tevê e a luz azul iluminou a sala. Diminuiu o volume todo, não importava mais o que estava no ar. Deitou-se no sofá. Repousou o copo na mesa de centro. Não usou o porta-copos. Sabia que a mulher reclamaria pela manhã a mesa manchada. Mas não se importou. Fazia tudo certo sempre. Mas hoje não. Hoje o certo não fazia sentido.

Fechou os olhos, sentiu-se leve, os pensamentos já não lhe pertubavam. Talvez nem existissem mais, não saberia dizer. Era uma leveza plena, daquelas que não se pode nem respirar. Olhou a sala à sua volta, o retrato das crianças, tantos momentos que ficaram na memória, tantas histórias. Sentiu-se triste. Era mesmo triste ter que partir sem ao menos se despedir. Mas era necessário. Ele sabia que era necessário. Eles haveriam de entender.

Silêncio. O silêncio que ele perseguia. O silêncio que o deixaria dormir, que teria resolvido todas as noites de insônia. O impalpável, o intangível, o inalcançável silêncio que ele havia procurado todos esses anos. Nem os pássaros, nem os mosquitos, nem a água no encanamento. Não. Nada mais o impedia de desfrutar aquele sono, o melhor, o mais profundo de todos. Nem os pensamentos, nem as inquietações, nem todas aquelas coisas que ele não sabia explicar. Nada. Nada.

Ele agora podia descansar em paz. Sorriu e, pela primeira vez, permitiu-se sonhar.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Web Watch
Katrina, continued: Personal stories of survival, tragedy and witness after Hurricane Katrina continue to capture our attention.
Hey, you have a great blog here! I'm definitely going to bookmark you!

I have a ##HSA## site/blog. It pretty much covers ##health savings account## related stuff.

Come and check it out if you get time :-)

-----------------------------------------------------

3:11 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Hi, I was just blog surfing and found you! I just stopped to say hello, I am a horse racing enthusiast it may not be of interest to you but if it is then this may be good betfairnot a related site. It isnt anything special but you may still find something of interest.

3:14 PM

 

Postar um comentário

<< Home