Sobre (meu) amor e geometria...

Tinha dois amores. Era João e era Gabriel.
Era João como tantos outros e, no entanto, era um só. Era Gabriel como outros tantos e não era só mais um. E, sem que eles soubessem, amava os dois ao mesmo tempo.
Vez ou outra, um notava algum possível distanciamento, mas ela desconversava, dizia que era coisa pouca, que não valia a pena falar. Mas era difícil conter o pensamento que, às vezes, voava até o outro pra reviver um momento ou curtir a saudade.
João tinha os olhos mais lindos do mundo e cílios longos que pareciam varrer a paisagem cada vez que movimentava suas pálpebras. Gabriel tinha mãos de anjo e bastava que ele procurasse as suas para que ela se sentisse mais segura. João tinha um sorriso de criança, meio torto, meio de banda. Um sorriso que denunciava que aquele nome sacrossanto escondia, às vezes, intenções pouco imaculadas. Gabriel tinha braços sempre abertos e o peito que ela gostava de fazer de travesseiro. João era um grande contador de histórias, tinha um repertório completo sobre os mais diversos assuntos e não hesitava contá-las ao primeiro que se dispusesse a ouvir. Mas era Gabriel quem estava sempre ao seu lado disposto a escutar toda e qualquer lamentação, mesmo aquelas descabidas por conta do ciclo. João adorava fazer amigos, falava com qualquer indivíduo com a intimidade de um velho conhecido. Gabriel era mais contido, temia sentir-se deslocado em seu novo círculo de amizades. João a acompanhava aos shows de música popular. Gabriel aceitava ir ao cinema para assistir a um documentário português. João, por ela, havia lido um livro inteiro. Gabriel, por ela, arriscava a conjugação de alguns verbos em alemão. João agora não jogava mais papel na rua. Gabriel agora lavava as mãos todas as vezes antes de abrir a geladeira. João fazia de tudo para não vê-la triste. Gabriel fazia de tudo para vê-la feliz.
Era mesmo uma menina de sorte. Aquele triângulo amoroso era um triângulo isósceles.


