estrela maciça que, num estágio avançado de sua evolução, explode, passando repentinamente a brilhar de modo muito intenso...

Março 22, 2005

"The last time I saw Richard"



Eu ganhei o CD acústico da Legião Urbana quando tinha uns 13 anos, quase 14. É claro que quase todo mundo passa por uma fase "legião" na vida, é justamente quando aprendemos a cantar "Faroeste Caboclo" na "língua do P" e achamos que, agora sim, estamos prontos para adentrar a adolescência e encarar todas as suas espinhas, crises e músicas de três acordes.

Todo mundo elege as canções preferidas de algum disco também. As minhas quase sempre são as 2, as 7 e as 10. Já tentei escrever teses sobre a disposição das músicas e a minha preferência por determinados números, mas não encontrei nada mais do que a Cabala. Bem, com o acústico não podia ser diferente. Desde que o ouvi pela primeira vez, chamou minha atenção a faixa número 10. Era "The last time I saw Richard". Não foi pelo sotaque do Renato Russo, nem pela melodia bastante depressiva, tampouco pela mensagem (aos treze, minhas limitações vocabulares anglo-saxônicas levavam-me constantemente ao dicionário em busca de verbos conjugados como done, been e seen). Não havia um porquê.

Colocava o aparelho no repeat e ouvia a música tardes inteiras, incessantemente. Inventei até um dialeto próprio que se adequasse à melodia, palavras ou frases inteiras que só faziam sentido (sim, faziam) para mim.

Só hoje tive a curiosidade de saber o que dizia. Não me lembro de ter tido essa vontade antes. Li a versão original, fiquei feliz ao perceber que, mesmo naquela época, não havia feito muitas modificações. Só não consigo entender por que não consigo cantar da maneira correta mesmo agora, depois de tantos anos, e com o texto em mãos. Acho que, no fundo, prefiro a minha versão.


The Last Time I Saw Richard by Joni Mitchell

The last time I saw Richard was Detroit in '68
And he told me all romantics meet the same fate someday
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe
You laugh he said you think you're immune
Go look at your eyes they're full of moon
You like roses and kisses and pretty men to tell you
All those pretty lies pretty lies
When you gonna realise they're only pretty lies
Only pretty lies just pretty lies
He put a quarter in the Wurlitzer and he pushed
Three buttons and the thing began to whirr
And a bar maid came by in fishnet stockings and a bow tie
And she said "Drink up now it's gettin' on time to close"
"Richard, you haven't really changed" I said
It's just that now you're romanticizing some pain that's in your head
You got tombs in your eyes but the songs you punched are dreaming
Listen, they sing of love so sweet, love so sweet
When you gonna get yourself back on your feet?
Oh and love can be so sweet Love so sweet
Richard got married to a figure skater
And he bought her a dishwasher and a coffee percoator
And he drinks at home now most nights with the TV on
And all the house lights left up bright
I'm gonna blow this damn candle out
I don't want nobody comin' over to my table
I got nothing to talk to anybody about
All good dreamers pass this way some day
Hidin' behind bottles in dark cafes dark cafes
Only a dark cocoon before
I get my gorgeous wings and fly away
Only a phase these dark cafe days

Março 18, 2005

Amor à Buarque




O melhor amor é aquele que não tem hora pra chegar (contudo, chega sempre na hora certa), não tem hora pra terminar (no entanto, chega ao fim sempre mais cedo do que havíamos previsto) e tem gosto de chuva com a melodia de Futuros Amantes assobiada na língua de Chico.

Isso explica o banho infiel na praia do Leblon, as visitas escondidas no meio da tarde depois de deixar as crianças na escola, a troca ilícita de olhares à vista de quem estivesse disposto a ver.

"Ele a seduzia há algum tempo. Não foi a primeira vez", "Não foi traição", "Foi coisa daquele momento. Um impulso que ela não conseguiu controlar", diz o marido.

Mas era claro que a culpa era dele... Aqueles olhos azuis...

Perdoável, convenhamos.

*Créditos à minha incondicional amiga Amêndoa, que, pacientemente, ensinou-me a arte do cutout no Photoshop!

Março 15, 2005

Re-cor-dar

Ela vinha andando na direção oposta, abraçada na mesma pasta velha e cansada, olhando para baixo como se contasse o número de pedras portuguesas. Ele a percebera ainda ao longe, mas não porque fosse especialmente bela ou singularmente interessante. Havia reconhecido sua figura e seu jeito cabisbaixo de andar; todavia não poderia apontar com alguma certeza de onde. Sua imagem era como uma foto antiga apagada pelo tempo, sem cenário, sem data, sem impressões.

Ficou a observá-la enquanto tentava, inutilmente, sabia, encaixá-la em algum vestígio de memória. Ela andava a passos arrastados, parecia-lhe extremamente gasta ainda na flor-da-idade, recordava-se de que ela sempre houvera tido esse olhar, como dizer, envelhecido.

Reconhecia nela aquele rir quase tímido, sabia que a maçã do rosto parecia mais robusta do que lhe seria conveniente, lembrava-se de que ela desviava o olhar toda vez que o sorriso lhe tomava a boca. Recordava-se de que ela, durante qualquer conversa, tentava mil vezes prender os cabelos num nó que a lisura invariavelmente desvazia, que nunca se dava por vencida, achando, ele presumia, que da próxima vez, talvez com mais jeito, conseguisse prender a madeixas.

Cada nuance, cada gesto, cada movimento não lhe era novo. Contudo, não conseguia localizá-la em suas lembranças e, confessava, não eram tantas, nem tão dignas de serem armazenadas.

Começou a acreditar que ela talvez fosse mera invenção de sua mente. Talvez nem existira de verdade em seu passado. Talvez sua existência presente fosse tão etérea quanto um pensamento vão.

Mas a verdade foi que lhe sorriu ao passar.

Março 10, 2005

...

Eu sempre achei que nostalgia tivesse cheiro de naftalina...