Sobre pequenas grandes coisas

Poderia ter acontecido em um dos tantos cafés charmosérrimos parisienses. Eu estaria tomando um cappucino, ela estaria tomando chocolate quente. Sentaríamos na mesa mais próxima da vitrine. Eu, prudentemente, esperaria alguns minutos a bebida esfriar. Afastaria a xícara para perto do vidro. Ela mexeria a colherinha em movimentos circulares por mais tempo do que o necessário, como se querendo dissolver mais o açúcar do que fosse possível. Eu não comeria nada - o gosto da angústia afastava meu apetite. Ela pediria um croissant e apontaria para o balcão, especificando o que desejava. Falaríamos sobre trivialidades até que o atendente trouxesse o pedido. Ela tiraria a colher da xícara e a repousaria sobre o pires ao lado. Tomaria o primeiro gole e, olhando para mim, perguntaria o que houve.
Contudo, ela estava lá. E eu estava aqui. Milhares de quilômetros nos separavam.
Nunca estivemos tão próximas.


